segunda-feira, 30 de junho de 2008

Morador de rua passa em concurso público

ACREDITE
Dormindo há 12 anos na rua, um homem passava os dias estudando sozinho e acabou passando no concurso do Banco do Brasil
Ubirajara Gomes da Silva, 27 anos, fugiu de casa aos 15 anos, quando cursava a 6ª série. Era vítima constante de agressões físicas e psicológicas. Desde então, vive nas ruas. Dorme em bancos de praças. Em 2001, resolveu voltar a estudar, freqüentar escolas públicas para ter acesso à merenda e poder comer para viver. Hoje, Ubirajara Gomes da Silva deve começar a fazer os testes exigidos para ser contratado como escriturário pelo Banco do Brasil. São testes de saúde e uma entrevista que funciona como teste psicológico. Nele, Ubirajara terá que contar a sua vida. Até a madrugada de ontem, ele não sabia que história contaria. Tinha medo de contar a verdade. Uma verdade que ele mesmo considera inacreditável. Há um ano, Ubirajara foi aprovado no concurso do Banco do Brasil. Ficou na 136ª colocação no Recife. Eram mais de 19 mil candidatos. Na última semana, finalmente, foi convocado para assumir o cargo. Porém, Ubirajara sequer tinha um documento. Nem a certidão de nascimento. Este homem praticamente não existia para a sociedade. Ele mesmo se sentia 'invisível', talvez até 'irreal'. Isso explica porque durante a entrevista para esta reportagem, Ubiarajara perguntou várias vezes que impressão estava causando. 'O que será que as pessoas vão pensar de mim?', questinava, com a insegurança de quem está se sentindo real pela primeira vez na vida. Há 12 anos, Wbirajara da Silva mora pelas ruas do Recife.
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AS PRIMEIRAS NOITES NA RUA
Wbirajara relata constantes agressões físicas e psicológicas que sofria na casa da avó. De lá veio o termo 'retardado', que ele não esquece. Aos 15 anos, costumava fugir de casa. Aos poucos, as fugas eram cada vez mais longas. Cada vez mais sem rumo. Longe de casa, sem dinheiro, começou a dormir pelos cantos. Primeiro, na Avenida Guararapes. Depois, na rampa do Hospital da Restauração. Ele resume essas noites em dois sentimentos: 'medo e solidão'. Sentimentos que parecem capazes de resumir as piores noites da vida de qualquer pessoa. No caso dele, não eram as piores. Eram todas.

A VIRADA
Wbirajara estava na 6ª série quando saiu de casa. E, nos primeiros anos sem teto, o seu único objetivo era sobreviver. E não há exagero ou qualquer tom heróico nessa afirmação. A vida na rua tem suas regras. Suas leis. O cotidiano das calçadas não permite escolhas. Não permite pudores. Nem princípios.Não podemos esquecer que esta é, antes de mais nada, a história de um morador de rua. E, nesse ponto, por muito tempo, Ubirajara foi só mais um.Um dos que pediam esmola, um dos que não cortavam o cabelo, dos que vestiam trapos, dos que sentiam fome, dos que precisavam fazer qualquer coisa para comer (neste caso, não se faz necessário detalhar o'qualquer coisa'). Violentado de todas as formas. Noites de culpa. Noites de dor.

Em 2001, o garoto decidiu voltar a estudar. Foi quando iniciou a reaproximação com os livros, as revistas e os jornais: 'Tudo que parava na minha mão, eu sempre lia. Acho que esse foi o meu grande diferencial inclusive nos concursos'. Estudando nas ruas, Ubirajara passou nas duas provas de supletivo e recebeu o diploma do ensino médio. Ainda assim, continuou freqüentando os colégios. Continua, aliás. Por um só motivo: as merendas.
A reaproximação com os pais ou com a avó nunca aconteceu. Ubirajara manteve contato apenas com os irmãos. Todos tiveram uma vida mais digna. Casaram, formaram família, conseguiram emprego. Em mais de uma década de rua, Ubirajara se acostumou a ser chamado de 'preguiçoso' e de 'teimoso'. 'Minha teimosiaé que fez com que eu não desistisse dos meus sonhos. Por mais que todo mundo me criticasse, eu continuei fazendo aquilo que eu acreditava', resume.No ponto de táxi do Mercado da Madalena, onde Ubirajara 'morou' por um bom tempo, os taxistas o definem como um 'rapaz honesto, que vivia estudando, não gostava de trabalhar e tinha um jeito de abestalhado'. Os dias de Ubirajara se resumiam a estudar. Às vezes, nas praças. Às vezes, em bibliotecas públicas. 'Não tinha todos os livros, aí ia para a biblioteca, fazia rascunhos, copiava tudo e levava comigo esses papéis para todos os cantos', conta. Ainda leva, na verdade. A tal pasta dele é repleta de anotações. Todos os tipos. Desde a sua mínima contabilidade (vive com algo entre R$ 2 R$ 5 por dia) até um projeto completo para abrir um negócio próprio. 'Quero ser nanoempresário. Menor do que micro', diverte-se.

O FUTURO
A quele morador de rua encolhido no batente de uma farmácia havia sido o 136º colocado no concurso do Banco do Brasil. A prova do concurso para escriturário do Banco do Brasil tinha 150 questões. Ubirajara acertou 116. Foi o quinto concurso que fez. Havia passado em outros quatro, mas nunca havia sido chamado. No início da semana passada, soube da convocação pela internet - onde vive quase que uma 'vida paralela'. Tem perfil no Ortkut e participa de dezenas de fóruns 'habitados' pelos 'concurseiros'. É conhecido nesse meio pelo apelido de 'Maior Abandonado'. Usa uma foto de Charles Chaplin. 'Sou viciado. Procuro sempre lugares que tenham computadores públicos. Na internet, as diferenças diminuem, não me sinto distante deninguém', conta, fazendouma analogia com a sua 'invisibilidade' como morador de rua. 'Estou aqui nessa esquina todas as noites? Ninguém vem aqui falar comigo. Você veio para me entrevistar. Mas você já tinhasequer me visto aqui?', questiona. A resposta, constrangida, foi 'não'.E foi na internet, em um fórum de discussão para 'concurseiros', que Ubirajara resolveu expor um drama que vinha lhe consumindo em silêncio desde o dia que soube da convocação. Tinha uma dívida de quase R$ 8 mil por empréstimos que fez há anos. E a regra em órgãos públicos é clara: para a contratação ser efetivada, o candidato não pode ter o nome no SPC ou Serasa. Bastou o relato triste para estimular uma verdadeira corrente de ajuda. Uma mobilização virtual que não demoraria para se tornar real. Um amigo que fez na internet se dispôs a pagar parte da sua dívida. Algo em torno de R$ 3 mil. O restante, o próprio Ubirajara pagará em 60 meses com o seu salário (R$ 954, mas que somando outros benefícios pode chegar quase a R$2.000). Dinheiro suficiente para revolucionar sua vida. Para que os seus sonhos, pela primeira vez, possam ser chamados de 'planos'.'Minha vida é como a música de Cazuza: Dias sim, dias não... Vou sobrevivendo sem um arranhão. Da caridade de quem me detesta'

Clique para ver:
Reportagem na Rede Record
Orkut de Wbirajara
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Uma história como essa, me faz acreditar mais no Brasil, na nossa gente.
Os mendigos passam pela gente e nem se quer olhamos para eles, fingimos que não vimos e se sentem excluidos. E ai? Eles procuram mostrar que estão ali e de uma forma bem comum hoje. Roubando, agredindo, abusando. Assim eles aparecem.
Me emocionei com a história e fiquei super orgulhosa. O 'maior abandonado', mostrou que pode se aparecer de outra forma, com dignidade, com brilho, coragem.
Podemos mudar isso gente e eles também podem. Viva a Ubirajara!!!!

Um comentário:

philippine lotto results disse...

Well for me its better to be more realistic.